Pesquise neste blog

sexta-feira, 12 de março de 2010

Até Que Ponto Perdoar e Esquecer? - Texto revisto e atualizado





O perdão alivia os pesos da alma, retira de nós uma bagagem que em nada nos seria útil. E perdoar não é esquecer, porque quando perdoamos, a lembrança continua conosco como aprendizado, mas não como mágoa.
Compreender é exercer a empatia no seu grau mais elevado e ir além: é estar disposto a sair da zona de conforto e mudar o “ponto de observação”. É calçar os sapatos do outro percebendo suas motivações e suas angústias. É ganhar uma nova perspectiva – algo que só nos enriquece, mas que demanda um esforço que quase ninguém está de fato disposto a fazer.
De qualquer forma, vejo tantas mulheres se esforçando para compreender e perdoar toda sorte de atitudes vindas do amado da vez… Mas, a mesma mulher, capaz de tamanha compaixão, não perde muito tempo tentando compreender uma amiga, uma pessoa da família ou um colega de trabalho que pisou na bola.
As relações familiares, em sua grande maioria, têm origem em um elo de afetividade. Surgem de um enlaçamento amoroso. 

A essa realidade evidente por si só cabe questionar, afinal, por que as relações afetivas migram para a violência em números tão chocantes e surpreendentes? 

Perdoar alguém que nos machucou a alma, e uma das tarefas mais difíceis que conheço. Veja em, perdão é diferente de culpa. Quando dizemos: "eu entendo o que ele fez", não estamos perdoando, estamos na verdade escondendo uma emoção dentro do nosso corpo. 

Estamos nos posicionando como vitimas, coitadinhas, e continuaremos, no mesmo circulo vicioso de sempre. É humanamente impossível, uma pessoa em sã consciência entender que foi violentada no que tem de mais intimo e precioso. 

Só a culpa, a vergonha, o medo, levam alguém a dizer que "compreende" a agressão sofrida. Seja essa agressão, física, psicológica, ou espiritual. Quando somos agredidas, somos violadas, o sentimento de raiva enche todo o nosso ser. Desejamos imediatamente revidar, e muitas vezes não o fazemos por medo, por interesses outros que nos fazem aceitar a dor imensa que estamos sentindo. 

Não consigo ver como uma mulher poderia "perdoar" seu agressor, enquanto continuar sendo agredida novamente e novamente e novamente. Só podemos realmente perdoar quando temos a certeza de que não seremos mais machucadas, dilaceradas, aviltadas. 

Quando conseguirmos nos afastar suficientemente do circulo vicioso em que estamos presas, e conseguimos ter um novo olhar para a situação, quando nos sentirmos absolutamente seguras que não seremos mais machucadas, ai sim, com o tempo... Há o tempo, quão maravilhoso é! 

Nossas feridas vão cicatrizando, vão criando casca, param de doer tanto, de nos incomodar diariamente, talvez ainda nos lembramos delas, mas não sangram mais. Ai sim conseguimos sentir o perdão brotando dentro do nosso coração e enchendo nossa sofrida alma de um maravilhoso alento. 

Olhamos para nós e vemos estamos cheias de cicatriz, mas estamos curadas. A cura não significa de forma alguma um estado de amnesia, o perdão também não não é esquecer o que nos aconteceu, o perdão é a total compreensão do que aconteceu. 

E ai perdoar será verdadeiramente maravilhoso para o nosso bem-estar, porque o perdão é apenas você entender tudo o que aconteceu e dizer: "Eu entendo isso, eu reconheço que permiti isso tudo em minha vida. Mas agora eu não quero mais viver com essa dor, eu não aceito mais continuar me machucando, me espezinhando por algo que já durou tempo demais, que já me feriu demais. Fim!"

Eu espero que cada mulher que está hoje vivendo, ou revivendo uma situação violenta possa chegar nesse ponto.

Creia me é maravilhoso, olhar para nossas cicatrizes e observar que elas não doem mais. Vale a pena todo o trabalho que temos que fazer para chegar aqui.









quinta-feira, 11 de março de 2010

Do que as mulheres tem medo? - Texto revisto e atualizado

Por que as mulheres agredidas vão à Delegacia para registrar queixa de agressão sofrida pelo marido/companheiro e, dias depois, regressam para retirá-la, assinando o termo de renúncia? Por que as mulheres perdoam seus algozes? Promotores/as e juízes/as estimam que, em mais da metade dos processos abertos, as mulheres capitularam... Uma autoridade da área da Justiça chegou a declarar haver dois tipos de mulheres — “as que gostam de apanhar” e as que “têm dignidade e acabam morrendo”. Essas questões nos remetem a vários questionamentos. Chamamos atenção para alguns, entre eles.

Transparece, nos depoimentos apresentados, uma interpretação de que... a culpa é da mulher. Há uma responsabilização das mulheres que são agredidas. Elas não só retiram a queixa, como acabam por perdoar seus agressores. Capitulam, têm medo deles, sentem-se constrangidas em denunciá-los. Sofrem em silêncio e caladas, temem não conseguir dinheiro para viverem sós e/ou com seus filhos. Enfim, elas, além de pobres coitadas, são... as culpadas!

Por que razões as mulheres retirariam as queixas? Por que razões perdoam seus agressores? Por que razões “gostam de apanhar”? Será que alguém já as indagou sobre isso? Vivemos em uma cultura que até ousou expressar sua misoginia, por meio de um porta-voz bem conhecido no país, que declarava: “Nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais.” Não foram poucos os senhores bem postos na vida que se divertiram em rodas de bares, relembrando essa “mensagem”, a um só tempo produzida por nossa cultura da dominação masculina e alimentadora desse caldo cultural.


São muitas as pressões, ameaças e medos que sofre uma mulher para não denunciar. Quando o faz, que garantia lhe é oferecida de que permanecerá viva? Que tipo de empoderamento, de fortalecimento lhe é oferecido para que mantenha a denúncia que lhe custou tanto fazer? Há sempre julgamentos morais e políticos relativos à violência vivida, como sendo falhas da mulher em seu “papel” ... de subordinada.

Que alternativas de segurança lhe são oferecidas, quando, muitas vezes, sua queixa nem mesmo é registrada? A mulher é apenas “aconselhada” a voltar para casa e “se entender” com o marido/companheiro agressor. E muitos registros acabam nem mesmo sendo considerados, pela precariedade das condições de trabalho, que não possibilitam a investigação por falta de tudo: pessoal, viaturas, tempo, equipamentos.

Por que o Judiciário se empenha em promover a "conciliação" entre o casal? Tal empenho não se vincularia a uma percepção familista de que, a qualquer preço, a família tem de ser mantida, e não a percepção do imperativo ético e político da defesa da integridade física e psíquica da mulher, para garantir-lhe o direito humano fundamental à vida e à dignidade? Qual o significado da conciliação para além da des-responsabilização do poder público, devolvendo a responsabilização da situação de violência à esfera do privado, de devolvê-la ao casal para que busque soluções?

Outra “solução” proposta é de colocar as mulheres durante seis meses em um processo "terapêutico", o que pode significar colocá-las em um processo de convencimento de que sua melhor alternativa é ... perdoar.

 As mulheres são agredidas, muitas correm risco de morte, são obrigadas a abandonar sua casa, filhos, emprego, parentes, pertences, até mesmo a fugir ou desaparecer. Passada a fase do pagamento de cesta básica, os agressores permanecem soltos. E, quando presos, não há indicação de que serão mantidos, por tempo razoável, na prisão.

Ser homem ou ser mulher é, muito mais do que uma determinação biológica, uma questão ligada a modelos culturais impostos e idealizados, por um dado grupo social. Falamos sobre um mundo onde o valor e o poder das pessoas são desiguais, não apenas da perspectiva de gênero, mas a outras perspectivas a ela associadas: raça/etnia, classe, geracional, regionalidade etc. A essa realidade, que se desdobra no âmbito das instituições, o Judiciário não está ileso.

Aceitar a conciliação seria a opção proposta para as mulheres. A pergunta permanece: "conciliar", na área de família, é possível? Quem vem pagando com a vida pela "conciliação" e pelo perdão? No quadro de nossa realidade, em que mulheres continuam a ser cotidianamente executadas, apostar na conciliação no âmbito da família pode contribuir para construirmos alguma alternativa defensável para as mulheres, para além da disjuntiva colocada pela Promotora do Tribunal do Júri do DF: supostamente “gostar de apanhar” ou preservar a dignidade e acabar morrendo?

---
Lourdes Bandeira e Ana Liési Thurler são professoras do Departamento de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília) e integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher-NEPeM/UnB.
Custom Search