Quantos tabus e preconceitos ainda cercam o corpo! Mesmo em escolas consideradas modernas o tema não ultrapassa o enfoque biológico.
Sexualidade e afetividade permanecem assuntos clandestinos.
Reforça-se assim a ideologia patriarcal de submissão do corpo feminino ao domínio masculino, aprofundando os dualismos que emanam do mito de que os papéis feminino e masculino estariam definidos segundo suas respectivas naturezas.
Ora, foram às definições supra estruturais que surgiram a posteriori para legitimar a apropriação do corpo da mulher pelo homem, levando-a a se pensar como ser-no-mundo em função, não de si mesma, mas do outro sexo, a ponto de ela encarar o seu corpo como algo estranho, cujo funcionamento só seria adequadamente controlado por uma categoria específica de homens - os médicos.
Somos um corpo. Assim como a árvore brota da terra, o corpo humano emerge da evolução do Universo. Somos todos feitos de matéria estelar. Nosso corpo tem a idade aproximada de 15 bilhões de anos! Sua gestação teve início quando o calor da explosão inicial do Universo ofereceu, a olho nenhum, a primeira festa cósmica de São João. Fogueiras acesas no firmamento pontilharam de luz a escuridão do céu.
Ali, no bojo dos fornos estelares, o hidrogênio, cozido a temperaturas altíssimas e diferenciadas, engendrou o magnífico colar da escala atômica. Todos os átomos do nosso corpo adquiriram, nas entranhas das estrelas, existência e consistência. Eram, então, como notas da escala musical que ainda não encontraram o instrumento capaz de fazê-las ressoar em música.
Muito tempo depois, os átomos do nosso corpo ganharam pele nas moléculas e vestiram-se com a roupa das células, construindo esse ser que somos. Já não faz sentido falar que somos um corpo dotado de alma.
Somos o Universo que se contempla a si mesmo. Em cada pessoa - no menino de rua e no sultão - o Cosmo se espelha e se descobre harmônico e belo. Cada partícula atômica de nossas moléculas dançarinas, que tecem as células que estruturam o nosso corpo, foi cozida no calor de uma estrela. Feitos de matéria estelar, somos todos filhos do Sol, como intuíam os indígenas astecas e andinos.
Reforça-se assim a ideologia patriarcal de submissão do corpo feminino ao domínio masculino, aprofundando os dualismos que emanam do mito de que os papéis feminino e masculino estariam definidos segundo suas respectivas naturezas.
Ora, foram às definições supra estruturais que surgiram a posteriori para legitimar a apropriação do corpo da mulher pelo homem, levando-a a se pensar como ser-no-mundo em função, não de si mesma, mas do outro sexo, a ponto de ela encarar o seu corpo como algo estranho, cujo funcionamento só seria adequadamente controlado por uma categoria específica de homens - os médicos.
Ali, no bojo dos fornos estelares, o hidrogênio, cozido a temperaturas altíssimas e diferenciadas, engendrou o magnífico colar da escala atômica. Todos os átomos do nosso corpo adquiriram, nas entranhas das estrelas, existência e consistência. Eram, então, como notas da escala musical que ainda não encontraram o instrumento capaz de fazê-las ressoar em música.
Somos o Universo que se contempla a si mesmo. Em cada pessoa - no menino de rua e no sultão - o Cosmo se espelha e se descobre harmônico e belo. Cada partícula atômica de nossas moléculas dançarinas, que tecem as células que estruturam o nosso corpo, foi cozida no calor de uma estrela. Feitos de matéria estelar, somos todos filhos do Sol, como intuíam os indígenas astecas e andinos.
Tudo isso é o corpo que somos, no qual a carne é tão espiritual quanto o espírito tão carnal, indivisíveis, dualidade sem dualismo, semente contida na árvore contida na semente que contém tronco e galho, seiva, folha e flor, assim como, desde seu início, o Universo nos continha e, desde sempre, Deus nos enlaça em seu abraço amoroso.
Esse corpo que somos é o corpo personificado do Cosmo e, também, imagem e semelhança de Deus.
"Nele vivemos, nos movemos e existimos", acentuam os Atos dos Apóstolos (17, 28). Agora, em nosso corpo, o Universo abandona sua bilenar cegueira e ganha olhos em nossos olhos - espelhos em que ele se contempla e descobre maravilhado, que é belo. Daí Cosmo, nome que provém da mesma raiz grega de cosmético, aquilo que embeleza.
Somos a Terra em sua expressão humana. Nós, homens e mulheres, não somos qual o barco colocado sobre as águas. Somos a água moldada em ondas e espumas.
Filhos da Terra, trazemos em nosso corpo à mesma proporção de água e sal encontrada neste planeta. Da natureza emergimos e graças a ela nutrimos a nossa vida, e encontramos em nosso corpo matas em forma de pêlos, superfícies lisas e ásperas, reentrâncias e protuberâncias, fendas, canais, fontes e cavernas.
Esse corpo que somos dorme e sonha, sofre e goza, sabe-se feliz ou contrai-se em tristeza, esbanja saúde ou fragiliza-se na doença. Sobretudo, é capaz de algo inacessível a todos os outros animais: sorrir. E, no entanto, ainda vivemos num mundo submerso em lágrimas. Porque esse corpo, provido de sentimentos e emoções, guarda rancores, iras e ódios, embora tão capaz de compaixão, ternura e amor.
Esse corpo que somos é morada divina. Porém, ainda profanado pelo trabalho opressivo, abatido pelas guerras, prostituído pela miséria, excluído pelo Estado de mal-estar social. Corpo feito para se revestir de dignidade, pleno de direitos. Corpo copo que acolhe vinho e carinho e se projeta em palavras, como o pássaro lança-se ao vento que imprime vôo às suas asas.
Somos a Terra em sua expressão humana. Nós, homens e mulheres, não somos qual o barco colocado sobre as águas. Somos a água moldada em ondas e espumas.
Filhos da Terra, trazemos em nosso corpo à mesma proporção de água e sal encontrada neste planeta. Da natureza emergimos e graças a ela nutrimos a nossa vida, e encontramos em nosso corpo matas em forma de pêlos, superfícies lisas e ásperas, reentrâncias e protuberâncias, fendas, canais, fontes e cavernas.
Esse corpo que somos é morada divina. Porém, ainda profanado pelo trabalho opressivo, abatido pelas guerras, prostituído pela miséria, excluído pelo Estado de mal-estar social. Corpo feito para se revestir de dignidade, pleno de direitos. Corpo copo que acolhe vinho e carinho e se projeta em palavras, como o pássaro lança-se ao vento que imprime vôo às suas asas.
Seria outro o efeito da política se ela centrasse seu programa, não em reajustes monetaristas, mas na economia dos corpos. Então, ela desceria do pedestal das abstrações numéricas para encarar corpos sem pão e sem terra; desamparados e prostituídos; desempregados e enfermos. Corpos destituídos de direitos, de dignidade e de beleza.
