Embora a ambiguidade nossa torne tudo mais interessante pela
multiplicidade de opções e interpretações, por outro lado nos aprisiona na
gangorra da indecisão. Sofremos essa divisão entre o “querer” fazer e o que
pensamos “dever” fazer. Realizamos em nós a frase da nossa infância, que
incansavelmente ouvi: Criança não tem querer.
Permanecemos, em algumas coisas, crianças – saboreando os privilégios
e sofrendo os limites dessa condição. Quem conviver conosco, marido ou filhos,
vai carregar um fardo a mais, que o lisonjeia ou o deixa solitário: ter ao lado
a eterna menina em quem não pode se apoiar, com quem não pode realmente
partilhar a vida.
Dinheiro e instrução não nos liberam facilmente da secular
lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes
limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de
homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar
no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos
para mostrar o quanto somos dedicadas.
Em suma, precisamos provar que merecemos afeto.
Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que
decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente
vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço, nem
força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos, e dos netos.
Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando
quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscamos pela internet,
o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.
Atrás de nós, o terror do tempo que passa devorando uma existência
que nunca aprendemos a administrar – pois jamais nos pertenceu: Pior:
possivelmente nem a queríamos administrar, porque isso significaria sair da
protegida resignação para o susto das decisões. Enfrentar obstáculos e exercer
enfim o tão desejado – e temido – poder sobre nós mesmas.
Quando aquele Anjo viesse bater á nossa porta oferecendo a
chance de ainda não nos levar caso pudéssemos dar três bons motivos para isso
... o que teríamos a lhe dizer além dos pretextos habituais. “marido e filhos
precisam de mim, e mas eu ainda nem arrumei a casa”, ou “preciso fazer compras
e preparar o jantar?”
Não se iludam: isto de que estou falando não acontecia só no
começo do século passado, nem ocorre, hoje,
apenas entre mulheres desinformadas ou simples. Embora tenha evoluído muito,
a situação de homens e mulheres – pois se falo de uma, fatalmente estou
envolvendo o outro – está em plena mutação.
Muito resta a cumprir para se poder falar em verdadeira
parceria. Ela exige equilíbrio entre servo e senhor não existe dialogo.